Watch Dogs 2 quase foi um fracasso — mas uma decisão ousada mudou tudo. Em vez de seguir o tom sombrio e pesado do primeiro jogo, a Ubisoft escolheu abraçar o absurdo, o humor e a energia da cultura californiana. O resultado foi um reinício que não só salvou a franquia, mas transformou o jogo em um dos mais memoráveis da geração.
O novo rosto de um mundo hacker
Marcus Holloway, o protagonista, é um jovem Black, inteligente e cheio de atitude. Diferente de Aiden Pearce, o personagem do primeiro jogo, ele não é um anti-herói amargurado. Ele tem senso de humor, convicção e um coração que bate por justiça — mas sem perder o brilho no olho. Sua personalidade, combinada com a equipe do DedSec, traz uma energia que se sente genuína, mesmo com os exageros e memes do passado.
As máscaras LED com emojis, os diálogos com gírias do começo dos anos 2010 e o ritmo acelerado das missões podem parecer forçados para alguns. Mas, no contexto do jogo, tudo isso faz sentido. O universo de Watch Dogs 2 é uma sátira do mundo tech: onde a inovação se mistura com o exagero, e onde o poder está nas mãos de quem sabe usar a tecnologia — mesmo que de forma desbocada.
A trilha sonora como espelho da identidade
Um dos maiores acertos está na trilha sonora. A playlist de Marcus Holloway é um espelho do espírito do jogo: eclética, irreverente e cheia de personalidade. De Dizzee Rascal a Run The Jewels, de KC & The Sunshine Band a Mac Dre, cada música parece ter sido escolhida para reforçar o tom de alegria e rebeldia.
Quando Holloway dirige um carro remotamente enquanto toca "Get Stupid" do Mac Dre, o momento transcende o entretenimento. É uma declaração de intenção: o jogo não quer ser sério. Quer ser divertido. E, sim, um pouco bobo. E isso funciona.
San Francisco como personagem
O cenário é outro ponto crucial. A versão de San Francisco em Watch Dogs 2 é uma explosão de cores, contrastes e contradições — prédios de vidro ao lado de casas vitorianas, riqueza e pobreza lado a lado. A cidade não é apenas um fundo; ela é parte da narrativa. Um lugar onde a inovação se mistura com a alienação, e onde os hackers são heróis de uma luta que parece quase impossível — mas que, no jogo, é feita com um sorriso no rosto.
Até mesmo os pequenos detalhes, como o app ScoutX para fotografar pontos turísticos, mostram que a equipe entendeu que muitos jogadores usam esses mundos abertos como forma de turismo virtual. E o jogo, em vez de ignorar isso, o celebra.
Apesar de todos os exageros — como a ideia de que todos em San Francisco têm acesso a um hackerspace e carros que podem ser controlados por celular — o jogo cria um universo coerente dentro de suas próprias regras. E, dentro desse mundo, tudo faz sentido.