Em meio a uma onda de portagens web de jogos feitas com inteligência artificial, Microsoft e Epic Games estão se unindo para condenar o uso de IA em recompilações — mas com uma ironia difícil de ignorar. Enquanto emitem notificações de DMCA contra projetos de fãs que recriam títulos como Fortnite, Call of Duty e Halo em navegadores, ambas as empresas continuam a usar modelos de IA treinados com dados obtidos de forma questionável.

Projetos como versões em navegador de Slay the Spire 2, Celeste e RimWorld — todos jogos que não usam IA em seu desenvolvimento — estão sendo alvos de takedown, mesmo quando os códigos são disponibilizados por devs que não autorizaram o uso. O contraste é ainda mais evidente quando se leva em conta que a Epic Games utiliza modelos como Google Gemini Nano Banana e OpenAI GPT Image, ambos envolvidos em processos judiciais por escaneamento de conteúdo de sites piratas.

Tim Sweeney, CEO da Epic, afirmou em entrevista que empresas de IA com práticas “ridículas” — como baixar terabytes de dados de BitTorrent — deveriam ser punidas. Mas ele não mencionou que a própria Epic está usando modelos treinados com dados ilegais. Em setembro de 2025, a Anthropic, parceira da Epic para seu novo jogo AI-first com Disney/Marvel, foi obrigada a pagar US$ 1,5 bilhão por usar dados obtidos ilegalmente — mesmo sem ter que recriar seus modelos.

Na Microsoft, o discurso muda quando o assunto é responsabilidade. Enquanto o CEO Satya Nadella e o vice-presidente Brad Smith pedem regulamentação mais rígida para IA, a empresa investe US$ 80 bilhões por ano em centros de dados para IA. O diretor de ciências aplicadas, Brent Hecht, já havia chamado o uso de dados da internet por LLMs de “o maior roubo de trabalho da história humana” — e os próprios documentos internos da Microsoft alertam que a IA está criando um “loop de destruição” que ameaça a base de conteúdo que sustenta seus próprios modelos.

O que está em jogo aqui não é apenas a ética da IA, mas a desigualdade no sistema. Enquanto grandes empresas podem se proteger com advogados e processos, desenvolvedores independentes — que não usam IA, nem se beneficiam do sistema — estão sendo silenciados. Ainda que o uso de IA para recriar jogos não seja legal, a verdade é que os maiores prejudicados não são os gigantes, mas quem mais precisa de proteção.

Esse debate não é sobre justiça para Microsoft ou Epic. É sobre os pequenos que não pediram para serem parte desse jogo. Eles não treinaram modelos com dados roubados. Não se beneficiaram do sistema. E agora, com medo de ter seus jogos recriados sem autorização, muitos estão se afastando da comunidade.