Em comemoração ao 15º aniversário da Warhorse Studios, Martin Klíma, co-fundador da empresa, concedeu uma entrevista exclusiva ao PC Gamer. O desenvolvedor, que é uma figura marcante da indústria, tem um histórico único: além de criar um dos RPGs mais ambiciosos da última década — Kingdom Come: Deliverance 2 —, ele foi um dos líderes do movimento estudantil que ajudou a desestabilizar o regime comunista na Checoslováquia.
Klíma lembra que sua trajetória começou nos anos 80, quando era estudante em Praga. A educação em inglês era limitada a materiais importados de países amigos, como Ghana, o que tornava o aprendizado descontextualizado. “Nossa vocabulário era sobre tratores e fornos a carvão, não sobre espadas e anões”, brinca.
Seu verdadeiro interesse estava em O Senhor dos Anéis, que não estava disponível na Checoslováquia na época. Foi só em 1987 que conseguiu acesso a uma cópia ilegal trazida do Ocidente. “Não sabia inglês o suficiente para ler, então precisei melhorar. Hoje, posso dizer que a conversa que estamos tendo agora existe graças a Tolkien.”
Com o tempo, Klíma encontrou um jogo que mudaria sua vida: o Dungeons & Dragons Basic Set. A experiência de encarnar um personagem, viver aventuras e criar histórias coletivas o deixou fascinado. “Foi como um chamado missionário. Quis espalhar o jogo.” Ele e sua namorada (hoje sua esposa) traduziram cerca de 80% do conteúdo, planejando distribuí-lo por impressoras clandestinas — algo impossível sob o regime, que proibia qualquer material considerado subversivo.
O grupo de jogos era parte de uma organização estudantil chamada Stuha, que Klíma ajudou a fundar. Um protesto contra a demolição de prédios da universidade foi visto pelo governo como uma ameaça. “Não era revolução por revolução, mas o regime via qualquer movimento organizado como um risco.”
Essa experiência de resistência pacífica moldou sua visão de mundo e, mais tarde, sua abordagem ao design de jogos. “Muitos RPGs ainda são para adolescentes”, afirma. “Estou cansado de jogos onde você é o ‘escolhido’. Quero histórias reais, com consequências, onde o herói não é um salvador mítico, mas alguém que luta por um mundo que não é perfeito.”
Hoje, Klíma critica o mercado por valorizar jogos baratos e com pouco conteúdo, o que, segundo ele, desvaloriza o trabalho dos desenvolvedores. Ele também vê a IA como uma ferramenta poderosa, mas com riscos: “Pode acelerar o processo, mas não substitui a alma de uma história.”
Com Kingdom Come: Deliverance 2 em desenvolvimento, Klíma mantém o foco em jogos que exijam tempo, reflexão e empatia — algo que ele acredita ser essencial para o futuro dos RPGs.