Phantom Blade Zero está prestes a chegar às prateleiras, mas sua jornada foi longa e cheia de reviravoltas. O jogo, que promete ação rápida e combate estilizado, nasceu de um projeto de 2011 no RPG Maker, parte da franquia Rainblood, criada pela desenvolvedora chinesa S-Game Studio.

Na época, apenas o primeiro título da série, Rainblood, foi traduzido por fãs e distribuído fora da China. Era um RPG de turnos com uma estética sombria e uma ambientação inspirada na Dinastia Ming. Dois anos depois, veio Rain Blood Chronicles: Mirage, um hack-and-slash 2D em Unity, que chegou ao Steam e consoles — embora versões para Xbox e PS agora estejam indisponíveis.

Depois disso, a S-Game lançou três jogos móveis exclusivos para o mercado chinês. Tudo isso mudou em 2023, quando foi anunciado Phantom Blade Zero, um jogo 3D de ação de grande escala, com orçamento elevado e a participação de Donnie Yen como ator e consultor de ação. Um ano depois, saiu Phantom Blade: Executioners, um beat ’em up 2D para PS4, PS5 e mobile — com os consoles novamente sem versão disponível.

Segundo uma matéria traduzida do chinês, o salto de qualidade veio graças a um aporte de centenas de milhões de dólares do Tencent, após rodadas de financiamento com NetEase e ZhenFund. A empresa revelou, em carta aberta em 2021, que estava investindo pesado em dois grandes RPGs de ação — um deles é o Phantom Blade Zero, enquanto o outro, Stellar Saga, ainda está em silêncio.

O combate: mais estilo que tática

Apesar de se inspirar em títulos como Black Myth: Wukong e Wuchang: Fallen Feathers, o jogo se distancia do modelo Souls-like tradicional. Em vez disso, mistura o ritmo de Sekiro com a fluidez de Devil May Cry. A grande diferença está na barra de stamina: ela só diminui ao desviar ou tentar bloquear ataques coloridos, não ao atacar ou bloquear com sucesso.

Além disso, os ataques leves não têm prioridade sobre outros comandos, permitindo que o jogador interrompa um golpe para bloquear no meio da execução — uma mudança crucial para um combate mais fluido e reativo.

O sistema de armas é robusto: 30 armas principais com movimentos únicos e 25 secundárias, como machados pesados ou mini-canhões. É possível trocar entre duas armas principais com o D-pad ou integrar a troca em combos — mas isso tem um tempo de recarga, exigindo estratégia.

O mundo: poesia em papel xuan

O design do mundo é inspirado em Dark Souls, com mapas interconectados que se reúnem de forma não linear. Em vez de um mapa detalhado, o jogador recebe ilustrações a tinta em papel Xuan — uma homenagem visual ao estilo chinês clássico.

O cenário é uma versão decadente da Dinastia Ming: corrompida por pragas, guerra e uma influência estética steampunk que traz criaturas mecânicas grotescas, em vez do tradicional desgaste místico.

Os chefes exigem reconhecimento de padrões, não apenas reação rápida. Isso valoriza a posição e o planejamento — algo que pode desafiar o ritmo frenético do combate contra grupos.

Enredo: o que falta é alma

O protagonista, Soul, é um personagem recorrente da franquia. Ele tem um tempo limitado para viver, uma história que remonta ao primeiro Rainblood. Em Phantom Blade Zero, esse contador regressivo é apenas narrativo — exceto em uma dificuldade extra, onde cada morte reduz um dia da vida do personagem.

Apesar do potencial, a trama é considerada pouco envolvente. Os personagens secundários se repetem em frases genéricas sobre luz, sombra e código de honra. O único destaque é Mó Yuan, interpretado por Donnie Yen — que também atuou como consultor de ação com o coreógrafo Kenji Tanigaki.

Apesar do brilho visual e do combate bem feito, o jogo parece ter perdido parte da alma do projeto original. O RPG Maker, com sua estética crua e encantadora, agora parece mais autêntico do que o produto final, com todo seu orçamento e polimento.

É difícil não se perguntar: será que a evolução da S-Game foi para o bem? Talvez o melhor caminho seja voltar ao início — e dar uma chance a Town of Death, o RPG de 2011 que parece, de verdade, ter alma.