Buscar uma camiseta oficial de um videogame hoje é quase uma missão impossível. Basta digitar "camiseta oficial de Slay the Spire" no Google para encontrar centenas de lojas — muitas delas com designs idênticos, cores diferentes e preços irrisórios. O problema? Muitas dessas lojas não têm qualquer ligação com os desenvolvedores do jogo.
Um fã do título postou no subreddit de Slay the Spire que comprou camisetas de um site que parecia oficial. No entanto, o produto tinha uma borda branca em volta das imagens e, segundo ele, ficou tão desbotado após poucas lavagens que pensou em doar as peças ao Goodwill.
Na verdade, o desenvolvedor MegaCrit não teve nenhuma participação na produção. O site em questão é de um terceiro que aproveitou o nome do jogo para vender camisetas feitas com IA. O problema não é só a qualidade — é a falsa promessa de autenticidade.
O colapso da qualidade no merchandising de jogos
Enquanto empresas tradicionais como The Yetee e Fangamer investem meses em desenvolver produtos com licença oficial, com feedbacks de equipes e aprovações rigorosas, o mercado atual é dominado por serviços de impressão sob demanda.
Essa nova realidade surgiu com tecnologias como a impressão direta sobre tecido (DTG), que funciona como uma impressora a jato de tinta para roupas. É rápido, barato e pode ser feito em casa. Mas o resultado? Cores desbotadas, imagens que desaparecem após poucas lavagens e uma sensação geral de que a peça foi feita sem carinho.
"Você pode usar quantas cores quiser, mas elas saem muito apagadas porque a impressora tem que misturar os tintas", explica Drew Wise, artista e criador de produtos para Mob Entertainment, estúdio por trás de Poppy Playtime.
IA, pirataria e o fim da paciência dos criadores
O problema piorou com a chegada da IA generativa. Agora é possível criar centenas de designs em minutos — muitos deles copiando estilos de artistas reais sem autorização.
Reed Young, CEO da Fangamer, diz que desenvolver uma camiseta com licença leva meses. É um processo colaborativo, com múltiplas revisões e aprovações. Já os concorrentes usam IA para lançar produtos em dias — e muitas vezes sem pagar aos artistas.
"Quando você consegue tirar algo do ar, ele volta em outro site. É como cortar uma cabeça de um hidra: enquanto você está tentando, outras três crescem", diz Young.
Artistas como Wise já desistiram de processar os roubos. "Foi tão estressante que desisti. Não vale a pena gastar energia com isso", conta.
Qual é o futuro do merch oficial?
Apesar do caos, os criadores não desistem. Eles acreditam que, no longo prazo, os consumidores vão valorizar mais o trabalho humano.
"A geração mais jovem quer arte real. Quer apoiar artistas", diz Wise. "A IA pode ser rápida, mas não tem alma. E isso, no fim das contas, é o que importa".
Para Glenn O’Neill, da The Yetee, a solução é seguir produzindo com qualidade. "Gastar energia tentando apagar o que não se pode controlar só te consome. Melhor focar em criar algo que realmente valha a pena".