O setor de games no Japão tem se mantido mais estável durante a crise de demissões que afeta o mercado global, especialmente em regiões como América do Norte e Europa. Segundo Amir Satvat, ex-diretor de desenvolvimento de negócios da Tencent Games e vencedor do Game Changer no The Game Awards, o modelo japonês de produção é fundamental para essa resistência.

Executivos bem pagos, mas bem menos que no Ocidente

Um dos principais fatores destacados por Satvat é o salário dos executivos. Enquanto líderes de empresas ocidentais recebem milhões — alguns acima de 30 milhões de dólares anuais —, os executivos japoneses, mesmo com remunerações altas, estão na casa dos 2 a 3 milhões de dólares. Isso reduz o impacto financeiro de cortes de custos e permite que empresas mantenham equipes mesmo em momentos de baixa lucratividade.

Equipes menores e foco em títulos mais enxutos

Outro ponto-chave é o tamanho das equipes. Em vez de investir em grandes jogos com 500 ou mais pessoas — como muitos AAA da indústria ocidental —, estúdios japoneses costumam operar com times mais enxutos. Isso reduz custos operacionais e aumenta a agilidade, além de tornar as empresas menos vulneráveis a cortes massivos.

Menos envolvimento com o modelo live-service

Segundo Satvat, o Japão não se envolveu tão profundamente no movimento de jogos live-service, que exigem equipes permanentes, atualizações constantes e investimentos contínuos. Esse modelo, amplamente adotado na América do Norte e Europa, se mostrou insustentável em tempos de crise, levando a demissões em massa. No Japão, isso não se repetiu com a mesma intensidade.

Retenção de talentos e cultura de longo prazo

Empresas como Nintendo, Capcom e Konami têm índices de retenção de funcionários acima de 97%. Isso mostra uma cultura de estabilidade e compromisso, mesmo que isso signifique sacrificar lucros a curto prazo. O foco está mais na sustentabilidade do que em expansões rápidas.

Salários de desenvolvedores também são menores

É importante destacar que a diferença de salários não se limita aos executivos. Um relatório da CEDEC de 2019 apontou que a média salarial de desenvolvedores no Japão era de cerca de US$ 37 mil por ano — bem abaixo dos US$ 142 mil médios nos EUA, segundo o relatório de salários da GDC de 2025.

Previsão de estagnação, mas não colapso

Apesar da estabilidade, Satvat acredita que a indústria global pode se contrair a longo prazo. O crescimento atual de 18 mil a 25 mil novos empregos por ano não consegue compensar as demissões — cerca de 14,5 mil previstas para 2026 —, o que representa um total de 58 mil demissões entre 2022 e 2026. Isso contrasta com a expansão de 150 mil novos postos entre 2017 e 2021.

“É difícil prever um cenário onde a indústria não se contrairá”, diz Satvat. “Mas, se tivermos sorte, talvez haja um ponto de estabilidade, onde o mercado se estabiliza em um tamanho menor, mas sustentável.”