O novo filme de Resident Evil, dirigido por Zach Cregger, não tenta ser uma adaptação fiel da saga original — e isso é exatamente o que o torna tão divertido. Em vez de se apegar aos grandes heróis ou à trama complexa dos jogos, o longa se posiciona no limiar da franquia, focando em Bryan, um entregador de medicamentos comum (interpretado com charme por Austin Abrams), que se vê envolvido no caos da cidade de Raccoon City durante um surto do vírus T.

O filme se estrutura como um jogo de ação em tempo real: missões curtas, combates constantes, encontros com inimigos e momentos de pausa para buscar armas e itens. A direção de Cregger, conhecido por Barbarian e Weapons, equilibra bem terror, comédia e exagero, criando uma experiência que oscila entre sustos reais e momentos absurdos — como um cachorro zumbi ou uma corrida de carro que parece saída de um jogo de 2002.

O destaque está no tom autêntico do jogador: o desespero, os xingamentos, os tiros no teto, a hesitação. A trilha sonora de vocalizações exageradas e gritos de pânico é uma homenagem ao que muitos de nós fazemos ao jogar, especialmente em jogos de sobrevivência como Silent Hill: Townfall. É raro ver esse tipo de experiência tão bem representada no cinema.

Apesar de uma trama leve e ausência dos personagens clássicos como Leon ou Claire, o filme se sustenta com atuações carismáticas, piadas recorrentes e cenas de ação bem montadas — incluindo uma tempestade de zumbis, um elevador que parece ter vida própria e criaturas grotescas que misturam horror corporal com humor negro.

É um filme que não se leva muito a sério, mas se leva muito bem. E nisso, acerta em cheio: ele não quer ser um filme de game, quer ser o que é jogar um game — com todas as falhas, o prazer e o caos que isso implica.