Desde os tempos da adolescência, joguei League of Legends com frequência. A comunidade online é conhecida por sua toxicidade, mas o que me incomoda hoje não é o xingamento comum — é a normalização de discursos de ódio dentro do jogo. Muitos jogadores descontam frustrações com a própria gameplay em outros, especialmente em momentos de tensão. Mas o que mais chama atenção é o silêncio da Riot Games diante de denúncias de racismo, homofobia e misoginia.
É frequente ver comentários racistas direcionados a jogadores com campeões negros — como Senna, Lucian ou Ekko — ainda no lobby, antes mesmo do início da partida. Em partidas com jogadores de diferentes países, especialmente argentinos, o preconceito se intensifica. Já recebi "mono" (macaco, em português) como resposta por tentar conversar em espanhol. É xenofobia disfarçada de brincadeira, e isso se tornou comum.
A misoginia também está presente de forma alarmante. Comentários sexistas, ameaças de estupro e assédio são constantes, mas passam quase despercebidos. Mesmo com mulheres e negros sendo maioria entre jogadores no Brasil, o ambiente ainda é hostil para quem não se encaixa nos padrões tóxicos da comunidade.
A Riot oferece um sistema de denúncia, mas ele não funciona como deveria. Muitas denúncias in-game são ignoradas. Tickets abertos não geram respostas concretas, apenas mensagens genéricas sobre análise confidencial. Quando há punição, é quase sempre um bloqueio temporário do chat — algo ineficaz em um ambiente onde o discurso de ódio é recorrente.
Apesar de casos isolados de banimentos — como o do streamer Yiok, banido para sempre após uma situação pública —, essas ações parecem reativas e dependentes de repercussão nas redes sociais. Seria necessário mobilizar centenas de denúncias ou registrar boletins de ocorrência para que algo mudasse? O sistema, assim como está, não protege quem realmente está jogando.
Comentários em redes sociais mostram que a dor é compartilhada. Muitos jogadores relatam que denúncias anteriores não tiveram consequências, e que pessoas que cometem crimes de ódio continuam jogando. Alguns já desistiram do jogo por causa disso — mas abandonar não resolve o problema. O preconceito continua, sem punição real.
É urgente que a Riot Games crie um sistema de punição efetivo, com diretrizes claras e consequências reais. Atualizações, eventos e novos campeões não adiantam se o ambiente permanece tóxico. O jogo precisa ser seguro para todos — não apenas para quem quer se divertir, mas para quem sofre diariamente com o preconceito.