Valor Mortis, da One More Level, é um Soulslike que desafia as expectativas desde o primeiro segundo. Ainda que comece com os clássicos elementos do gênero — lanterna em vez de bonfire, poções de cura, mortos que podem ser revividos — o jogo logo muda de ritmo com um salto de qualidade: parkour, tiros, e um sistema de combate que mistura espada, pistola e habilidades especiais com uma velocidade impressionante.
Protagonizado por William Dowsett, um soldado da Grande Armée de Napoleão reanimado após a morte, o jogo se passa em um mundo alternativo onde a Revolução Francesa teve um desfecho sobrenatural, impulsionado por uma substância chamada Nephtoglobin. A atmosfera é opressiva, com campos de batalha cobertos de cadáveres, mas há beleza em meio ao caos: campos de lavanda, lagos cercados por montanhas nevadas e florestas cobertas de névoa.
O combate é o coração do jogo. No início, o ritmo é mais tradicional: paradas, contra-ataques, esquiva e paradas bem-timed, como em qualquer Soulslike. Mas, logo, aparece a arma de fogo. Você pode atirar a qualquer momento, sem parar o movimento, e acertar pontos vulneráveis — como as pústulas do Plague Red — para quebrar a defesa inimiga. Isso muda completamente a dinâmica, introduzindo um ritmo de "correr, atirar, cortar" que se torna uma das marcas registradas do jogo.
As opções de armas se expandem com o tempo: rifles para longa distância, espingardas com recarga lenta, e uma espada-rapier que prioriza paradas agressivas em vez de bloqueios. A rapier, apesar de não bloquear, é extremamente eficaz — e o tempo de parada é generoso o suficiente para torná-la a arma preferida para a maioria das batalhas.
Os inimigos são bem diversificados: camponeses com lanças erráticas, axeman com ataques rápidos e inbloqueáveis, e soldados elite com golpes de duas espadas. Cada um exige um estilo de combate diferente, incentivando a experimentação. E os chefões são o verdadeiro destaque: o primeiro, um general fundido com seus homens, é uma visão grotesca e memorável, com momentos de ação que misturam drama, grotesco e um toque de humor absurdo.
O parkour é tão integrado ao jogo que quase parece um plataforma. Você corre, pula, se agarra a cordas, corre pelas paredes e até cria plataformas temporárias com habilidades especiais. Isso transforma os cenários em verdadeiros labirintos de movimento, cheios de rotas alternativas, segredos e pontos estratégicos — como canhões escondidos ou passagens secretas.
Apesar do ritmo acelerado, o jogo é mais acessível do que outros títulos do gênero. Não é fácil, mas evita o excesso de punição. A progressão tem um toque de Metroidvania: habilidades novas abrem caminhos para áreas antes inacessíveis, com recompensas como gemas que aumentam suas habilidades.
Na parte final, no entanto, o jogo começa a perder força. A repetição de inimigos e cenários — embora bem construídos — começa a se tornar previsível. A história, por sua vez, nunca se desenvolve completamente, e o mundo, embora bonito, não se expande muito além do que já foi mostrado.
Em termos de acessibilidade, o jogo oferece opções robustas: toggle de tremor de câmera, ajuste de campo de visão, subtítulos personalizáveis, controles personalizáveis, e até separação de volumes para cada tipo de som. Tudo isso ajuda a tornar a experiência mais inclusiva.
Valor Mortis é, no fim das contas, um dos Soulslikes mais animados e criativos dos últimos anos — um jogo que se destaca pela ousadia, pela fluidez do combate e pela beleza visual. Mesmo com seus limites no final, ele entrega uma jornada emocionante, especialmente para quem gosta de ação rápida e mundo aberto com toques de fantasia histórica.