Veteranos da indústria de games, como Harvey Smith (Dishonored), Raph Koster (Ultima Online) e Sam Barlow (Her Story), estão chamando a atenção para uma crise que vai muito além do que se vê nas telas. Em uma entrevista publicada pela revista Edge e compartilhada por PC Gamer, eles afirmam que o problema do setor não é apenas criativo ou técnico — é sistêmico.
Smith, ex-diretor criativo da Arkane Studios, destacou que a indústria está presa em um sistema onde decisões são guiadas por lucros imediatos, especialmente com o investimento em inteligência artificial. "Você não quer se manter com desenvolvedores que fazem um hit a cada três jogos se pode colocar o dinheiro em IA e fazer o preço das ações subir", disse. A ideia é que o modelo atual valoriza especulação e crescimento sustentado, mesmo que isso signifique demitir equipes e cortar inovação.
Raph Koster, criador de Ultima Online e Star Wars: Galaxies, apontou que a ausência de regulamentação leva à concentração de mercado, cartéis e monopólios. "É intrínseco ao sistema. Quando não há controle, ele se torna predatório", afirmou. Para ele, o problema está na estrutura econômica que permite que grandes empresas se consolidem, eliminando espaços para pequenos estúdios e projetos independentes.
Sam Barlow, autor de Her Story e Telling Lies, foi mais direto. "No fim das contas, para consertar o que está errado na indústria de games, talvez precisemos consertar a realidade", declarou. A frase ecoa uma crítica profunda ao capitalismo contemporâneo, onde o valor é medido apenas por retornos financeiros, não por arte ou impacto cultural.
A situação se agrava com o colapso de estúdios como o Arkane Austin — responsável por Redfall — e com a pressão dos mercados de ações. Empresas como Devolver Digital, que se tornou pública em 2021, anunciaram a saída do mercado de capitais por entenderem que o modelo de crescimento linear exigido pelos investidores é incompatível com a natureza criativa dos games.
Apesar do tom sombrio, há um resquício de esperança. Smith afirma ser otimista: "As pessoas vão continuar se reunindo e criando coisas legais. O modelo pode mudar, a estrutura pode mudar, mas a vontade de fazer jogos não vai desaparecer."
Essa conversa reflete um momento crítico para o mercado brasileiro também. Com a alta de custos e a escassez de financiamento, estúdios independentes locais enfrentam dificuldades semelhantes, mesmo sem a pressão dos mercados de ações. O debate sobre o futuro da indústria não é apenas global — é urgente, aqui também.