Enquanto o eco do fim da BioWare ecoa pelo mundo, não consigo parar de pensar no impacto que seus jogos tiveram em mim. Entre todas as obras da empresa — Mass Effect, Dragon Age, Jade Empire — foi Star Wars: Knights of the Old Republic que me marcou de forma mais profunda.

Esse jogo não é apenas um título que adorei e repliquei. Ele se tornou uma memória viva, um momento crucial do meu passado. Personagens como Bastila, Mission e HK-47 parecem mais amigos de uma era anterior do que companheiros de um jogo.

Minha relação com Star Wars foi tardia. Criança, desconfiei da franquia por um capricho: preferi brincar do lado de fora a ver A Nova Esperança. Só anos depois, em 1997, com a caixa VHS do trilogia remasterizada, entendi que os filmes eram bons — mas ainda assim, não me sentia conectado.

Até que cheguei a Taris, 4 mil anos antes dos eventos da saga original. O jogo me mostrou algo novo: um mundo com infinitas possibilidades. Não havia uma única trilha. Poderia ajudar os pobres a conseguir medicamentos, ou sabotar a cura para lucrar com o caos. Poderia salvar um casal de amantes ou incitar uma guerra entre famílias. E tudo isso, sem que o jogo me obrigasse a escolher o caminho certo.

Lembro de replaí-lo em 2009, só para testar o lado sombrio: roubei medicamentos, entreguei um soro a um Hutt para exploração, matei uma vítima para salvar um agressor. Foi terrível. E exatamente por isso que o jogo é tão poderoso: ele me permitiu ser vil — sem me julgar.

Esse nível de profundidade em histórias secundárias era raro em 2003. Um conflito entre duas famílias, um amor proibido, uma solução que envolve união ou destruição total. O jogo não exigia que eu me envolvesse — só me convidava a escolher.

E o mais importante: eu me importava. Mission não era só uma adolescente em um jogo. Era uma garota real, com atitudes de 14 anos, sem a sabedoria artificial de personagens adolescentes em outros títulos. Como trabalhava com jovens na época, senti uma conexão genuína com ela.

Até o ponto de, em uma replay malvada, forçar Zaalbar — que havia jurado protegê-la — a matá-la. Ainda me assombra.

Knights of the Old Republic não só expandiu o universo de Star Wars para mim, mas me mostrou que jogos podiam ser mais do que entretenimento. Podiam ser histórias, memórias, experiências que moldam quem você é.

Hoje, com a BioWare desativada pela EA, o peso é ainda maior. Mas alegro-me por ainda poder jogar esse legado — e lembrar que, às vezes, um jogo pode mudar sua vida.