A morte da BioWare, anunciada pela EA em outubro de 2026, foi considerada por analistas do setor como um desfecho previsível. Segundo Joost van Dreunen, especialista em jogos, o fechamento da desenvolvedora canadense — responsável por títulos icônicos como Mass Effect e Dragon Age — foi uma consequência direta da estrutura financeira da EA após sua aquisição por um consórcio liderado pelo PIF, que deixou a empresa com cerca de 18 bilhões de dólares em dívidas.
Essa dívida gera cerca de 1,8 bilhão de dólares em juros anuais, superando o EBITDA anual da empresa, que está em torno de 1,5 bilhão. Com isso, a EA precisa cortar 700 milhões de dólares em custos por ano para manter a saúde financeira, o que tornou equipes como a da BioWare, com projetos de longo prazo e alto investimento, alvos fáceis de corte.
"Franchises como Mass Effect são hoje consideradas 'projetos de prestígio' para a EA", afirma van Dreunen. "São títulos com grande valor cultural, mas que não geram fluxo de caixa previsível. Em um cenário de foco em esportes, serviços ao vivo e expansão na Ásia, esses IPs são difíceis de justificar economicamente. O fechamento da BioWare foi exatamente o que se espera de uma aquisição com alavancagem: cortar custos para sobreviver".
O desempenho comercial dos últimos jogos da BioWare foi um fator decisivo. Dragon Age: The Veilguard, lançado em outubro de 2024, vendeu cerca de 1,9 milhão de unidades até setembro — bem abaixo das metas internas. Antes disso, Mass Effect: Andromeda (2017) e Anthem (2019) também não atingiram expectativas de vendas ou crítica, o que reforçou a percepção de que os títulos da empresa não são rentáveis o suficiente para justificar o investimento.
Piers Harding-Rolls, da Ampere, reforça que a falência de projetos recentes, combinada com a mudança de estratégia da EA, tornou a situação da BioWare insustentável. "É um momento simbólico para a indústria. A BioWare representou décadas de inovação narrativa nos RPGs. Ver uma empresa com 30 anos de história fechar é um golpe para o setor, mas também um reflexo do novo modelo de negócios: lucro imediato acima de legado".
Apesar do desânimo, há espaço para esperança. Alguns analistas acreditam que a EA possa vender os IPs da BioWare a estúdios menores ou com foco em inovação. No entanto, há também a possibilidade de os títulos serem guardados em um 'baú', como diz o ex-executivo Mark Darrah, que tem dúvidas sobre o futuro dos universos de Mass Effect e Dragon Age.
Para o mercado brasileiro, o fechamento da BioWare é um sinal do impacto da pressão financeira sobre o desenvolvimento de jogos AAA no Ocidente. Com custos altos e demanda por resultados rápidos, títulos com foco narrativo e longos ciclos de produção estão cada vez mais em risco.