O novo filme de Street Fighter, lançado em 2026, entra em cena com uma promessa ambiciosa: trazer o universo dos jogos de luta para o cinema com todo o peso de uma adaptação live-action. Mas o resultado é algo que vai além do bom ou do ruim — é uma obra que se divide em dois filmes distintos, vivendo em paralelo: um que é tão ruim que se torna divertido, e outro que é tão ruim que simplesmente não funciona.
Apesar de uma montagem confusa, diálogos estranhos e uma direção de edição que parece ter sido feita por alguém em estado de sono, o filme consegue se manter em pé graças à energia dos atores. Cody Rhodes como Guile é um verdadeiro destaque, interpretando o personagem com uma mistura de exagero e carisma que transforma cenas simples em momentos memoráveis. Jason Momoa, por sua vez, entrega uma versão de Blanka que parece ter saído de um filme de ação de baixo orçamento, mas com tanta entrega que acaba funcionando.
O filme se afunda em clichês, ironia forçada e referências nostálgicas que parecem ter sido copiadas de uma playlist do Spotify dos anos 90. M. Bison, o vilão central, é tratado com uma obsessão por detalhes ridículos — como um suposto pé-fetish — e há cenas em que o ator David Dastmalchian parece estar em um orgasmo constante. O tom é tão absurdo que, por mais que o roteiro falhe em todos os sentidos, o filme acaba se tornando uma espécie de comédia de ação maluca, onde o ridículo é o principal recurso.
Apesar de ter um elenco gigantesco, com praticamente todos os personagens principais do jogo, a maioria dos lutadores é subutilizada. A luta entre Guile e Vega, por exemplo, acontece fora da tela — o que é uma ofensa ao público que espera ver os combates que definem o universo de Street Fighter. Os poucos confrontos que aparecem são bem coreografados, com movimentos icônicos como os fireballs de Ryu sendo executados com um toque de nostalgia. Mas o fato de tantos personagens não terem suas lutas de verdade é um golpe duro para os fãs.
As mulheres do elenco são tratadas de forma problemática. Cammy é transformada em uma versão descontrolada de Juri, perdendo a essência de sua personagem. Chun-Li, por sua vez, ganha cenas com um tom sexualizado que desrespeita sua trajetória. Esses momentos não apenas reduzem a gravidade dos personagens, como também mostram um desrespeito ao universo criado por Capcom.
Apesar de todos os problemas, o filme tem um charme inegável. Aos poucos, depois de várias sessões de debate com amigos, ele começa a fazer sentido — não como uma obra cinematográfica, mas como um ritual de grupo. É o tipo de filme que você não assiste para se entreter, mas para compartilhar com outras pessoas, rir, discutir e tentar entender o que exatamente aconteceu.
Street Fighter (2026) não é um bom filme. É incoerente, mal editado e cheio de falhas. Mas, por algum motivo, ele funciona — não como uma adaptação, mas como uma experiência coletiva. Um filme que é tão ruim que se torna bom, e tão bom que se torna ruim. E, talvez, isso seja o mais próximo que chegamos de um verdadeiro tributo ao espírito dos jogos de luta.