O JRPG WendyQuest: Legend of the Four Corner Stones não é só um jogo de aventura com estilo 16-bit: é uma declaração de princípio. Criado pela estúdio indie 81Monkeys com apoio da Wendy's, o título se destaca não apenas por sua jogabilidade envolvente, mas por sua posição clara contra o uso de inteligência artificial na criação de conteúdo.
Segundo Stephane Cotichini, fundador da 81Monkeys, o projeto surgiu em meio a uma crise de financiamento para seu jogo principal, World of Anterra. Com o apoio da Wendy's, a equipe conseguiu manter o desenvolvimento de ambos os títulos, dividindo seus recursos em partes iguais. A parceria, no entanto, foi marcada por uma exigência clara: nada de IA.
"Wendy’s não deveria ter um jogo tão bom assim", disse Cotichini em entrevista ao Polygon. A frase, irônica, revela o quão fora do comum é o nível de qualidade artística e narrativa do jogo — especialmente vindo de uma marca associada a fast-food.
O jogo traz uma mecânica de combate baseada em um gauge que se preenche rapidamente. O jogador deve acertar o momento exato para atacar, o que cria tensão e engajamento, evitando o padrão de jogos clônicos de RPG. A trilha sonora, as piadas e o tom satírico também se destacam, com referências diretas à concorrência — como o vilão Dr. Mechborg, cujo logo é uma gigantesca letra "M" dourada, simbolizando a ambição de lucro acima de tudo.
Além disso, a equipe reescreveu cerca de 99% do roteiro original, adaptando-o para um universo mais vivo e consistente. O resultado é um jogo com identidade própria, que resgata a nostalgia sem cair na repetição de fórmulas.
Um dos pontos mais fortes do projeto é o posicionamento ético: ambos os jogos da 81Monkeys — WendyQuest e World of Anterra — trazem a frase "100% feito por humanos" em suas páginas do Steam. Cotichini afirma que o uso de IA, mesmo em tarefas como criação de NPCs, acabou sendo contraproducente, aumentando custos e reduzindo a produtividade.
Em um momento em que marcas como McDonald’s usam IA para gerar anúncios surrealistas e algoritmos de preços dinâmicos, a escolha da Wendy's por investir em arte genuína — com músicos reais, roteiristas humanos e desenvolvedores independentes — se torna uma atitude política. O jogo é, na verdade, uma crítica ao capitalismo e à mercantilização do criativo.
"A criação artística ficou mais diluída nos últimos anos porque foi dominada por interesses comerciais", diz Cotichini. "Agora, vejo um movimento contrário: o valor do trabalho humano está sendo reconhecido de novo."
Marca: www.polygon.com